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Fundamento da colaboração e integração entre Arquitetura e Engenharia

Foto do escritor: Renê RuggeriRenê Ruggeri

A marca do discurso atual na produção de Arquitetura e Engenharia é a integração e a colaboração. Mas a marca da prática de mercado nestas áreas ainda é a segmentação e isolamento dos conteúdos. Isso demonstra empiricamente que a ação não é guiada pelo discurso, o que nem chega a ser novidade, pois esse isolamento entre discurso e ação é conhecido por qualquer cidadão em diversas áreas de atuação profissional. Inclusive, a coerência entre eles (discurso e ação) é reconhecida como traço excepcional desejável nas pessoas e não como característica comum a qualquer uma.


Sendo direto, discursar sobre colaboração e integração não produzirá nem colaboração, nem integração. Pode influenciar, claro, por isso é importante que o façamos. Mas o discurso sozinho não é solução.


Tampouco é solução oferecer recursos de compartilhamento de informações. Isto também é necessário, mas está longe de ser suficiente. Ter acesso a informações é um passo importante, mas é preciso ter a capacidade e habilidade de integrá-las à própria visão de mundo para compor uma interpretação menos incompleta das coisas. Ter a informação e usufruir dela no processo de compreensão do mundo são coisas diferentes. Isso vale na grande escala, para a visão de mundo, e na pequena escala, para a visão de um problema específico (por exemplo, algum desafio do dia a dia profissional).


Um traço marcante do universo profissional, sobretudo os mais tecnicistas, que condiciona toda sua produção (válido também para a construção civil) é a separação dos conteúdos ou conhecimentos. Afinal, colaboração e integração são atualmente tão requisitadas exatamente para reuni-los.


O problema é claro e deveria ser óbvio: a compreensão de um fenômeno geral é fortemente impactada e limitada pela perspectiva com a qual se olha para ele. Se o repertório é segmentado a única certeza que se tem é que a compreensão também será. Há uma máxima interessante sobre o raciocínio que diz: “por raciocínio lógico dedutivo, não se pode concluir nada que já não esteja implícito nas premissas”. Ou seja, se faltam pedaços nas premissas, as conclusões não poderão ser completas.


O resumo do problema atualmente é:


  • ·Temos recursos para acessas qualquer informação (tecnologia);

  • Reconhecemos a necessidade de colaborar no uso delas;

  • Nossa prática, apesar das premissas acima, ainda é muito falha em integração.


O que falta para resolver essa equação?



Minha resposta é: falta estrutura de pensamento adequada à colaboração e integração. Edgar Morin disse que “precisamos trocar o pensamento que isola e separa pelo pensamento que distingue e une”.


Mudar a estrutura de pensamento (que condiciona a ação) é bem mais complexo que distribuir e dar acesso a informações. Estamos falando da formação intelectual das pessoas, do condicionamento mental que estrutura nossas ideias e visão das coisas. Não confundamos isso com formação profissional que é meramente uma espécie de adestramento para certos processos produtivos. Estamos nos referindo à perspectiva com a qual compreendemos tudo no mundo e pela qual decidimos (ou deveríamos decidir) nosso modo de agir. Colaboração é ação, integração é resultado dela; ambas são reflexas da visão de mundo que, por sua vez, decorre da estrutura de pensamento com a qual nos formamos.


No universo da construção civil, uma das separações mais estruturais que existem é o isolamento entre Arquitetura e Engenharia. Estas áreas, embora se reconheça no discurso sua proximidade, na prática são exercidas (ação) pela maioria absoluta do mercado com um isolamento quase radical. A sustentação desta radicalidade de isolamento não está na prática (que é reflexo), mas na compreensão que se tem delas e de sua relação.


A constatação prática, cotidiana e óbvia desse isolamento é a crença consolidada, em ambas as áreas, de que a produção (ação) arquitetônica antecede a de engenharia e até independe dela. Isso é tão enraizado na percepção que temos das coisas, estritamente baseada no empirismo da prática, que se torna extremamente difícil para qualquer pessoa pensar de forma diferente e, o que é decorrente, agir de forma diferente.


A limitação desta perspectiva é evidente quando se constata que em nível de concretização da realidade (ação no mundo, obra), este isolamento é inviável, mas é adotado artificialmente em nível de pensamento, reflexão, criação e planejamento (projeto).


Ela se manifesta também quando se impõe um sequenciamento obrigatório entre as ações de uma e outra, o que não se sustenta na realidade, pois não há fundamento lógico que justifique essa obrigatoriedade a não ser a própria deliberação de quem age. Ou seja, trata-se de uma questão de compreensão sobre a realidade e não da natureza própria da realidade. Afinal, não há razão para se impor que um conteúdo seja, antecessor e condicionante do outro, uma vez que esta ordem pode também ser invertida por deliberação de quem age.


Aliás, é o que ocorre em reformas de edificações, as novas definições de arquitetura estão previamente condicionadas pela estrutura existente. Se esta inversão é possível em reformas, não há justificativa para que não possa ser em novas criações.


A questão é que a separação das especialidades foi traduzida num sequenciamento artificial imposto, não porque fosse adequado, mas pelo fato de a organização do trabalho ser condicionada pela estrutura de pensamento segmentada, sobretudo no último século.


Atualmente, quando se fala de colaboração e integração, há uma concordância generalizada. Mas, na prática, essa colaboração e integração é ainda essencialmente falha, pois os processos partem de um sequenciamento estruturado pelo raciocínio que separa e isola (que ainda impera no mercado, muitas vezes mesmo entre aqueles que discursam sobre colaboração e integração). E, o que torna mais complexa a questão, as pessoas em geral sequer reconhecem a falha lógica. Não há como resolver um problema que não se compreende.


Assim, o mercado tem confundido, aqui e ali, colaboração com compartilhamento de informações e integração com compatibilização.


Mas precisamos ir por partes, afinal não se transforma em poucas décadas uma estrutura mental e de visão de mundo que vem se consolidando há pelo menos três séculos. As transformações no mundo estão cada vez mais rápidas e decorrem da ação do homem sobre ele. Mas a transformação a que nos referimos é nas pessoas e decorre da influência que o mundo exerce sobre elas. Este não é um daqueles casos em que o sentido não faz diferença.

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